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Artigo de Imprensa / 06 Abr 2020

Ainda não é a cura, mas é uma esperança. O medicamento que eliminou o novo coronavírus nos testes

TSF, 6 abril 2020

É um estudo promissor, mas terá de ser complementado. A Ivermectina, um antiparasita conhecido desde os anos de 1980 em todo o mundo, é produzida em Portugal pela Hovione.


A Hovione, com sede em Loures, está disponível para aumentar a produção do medicamento, caso seja confirmada a eficácia no combate à Covid-19.

Investigadores australianos conseguiram eliminar, em testes in vitro, o novo coronavírus (Sars-Cov-2) com um fármaco disponível no mercado desde os anos 1980 e produzido em Portugal. O medicamento promissor é a Ivermectina, um antiparasita, que já obteve resultados

Os especialistas deixam, no entanto, uma ressalva: o estudo foi apenas realizado em culturas celulares, sendo que ainda não "é possível realizar os ensaios em seres humanos". No estudo divulgado pela Universidade australiana de Monash, os investigadores adiantam que foi possível eliminar o material genético viral "em 48 horas", usando a Ivermectina.

O virologista Celso Cunha explica que "a Ivermectina é conhecida por ser um inibidor de um processo fundamental que existe dentro das células" que é o "do transporte nucleocitoplasmático, um processo geral de todas as células do nosso organismo". O processo é complexo, mas consiste basicamente nisto: "Para muitos vírus se conseguirem replicar, algumas das suas proteínas também têm de passar pelo núcleo das células e, inibindo esse transporte do citoplasma para o núcleo, supostamente a ivermectina estaria a contribuir para a anulação da aplicação viral nos parasitas e vírus", explica o virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa.

Celso Cunha deixa, no entanto, um alerta, explicando que sendo este um processo para o normal funcionamento das nossas células, não podemos viver sem ele. "Se estamos a inibir um processo fundamental para as células sobreviverem, nesse caso, estamos perante um medicamento que é tóxico se não for bem doseado."

O virologista defende que, nesta fase, deve ser aprofundada a investigação da relação deste fármaco no tratamento da Covid-19, sublinhando, no entanto, que este pode não ser o caminho para a cura da doença: "Estamos a interferir com um processo fundamental e corremos o risco de o doente morrer da cura e não morrer da doença", avisa.

Ouça a peça de Guilherme de Sousa com Marco Gil (ao minuto 1:15)


Medicamento genérico é produzido em Loures

Em Portugal, a ivermectina é produzida pela farmacêutica Hovione, que tem sede em Loures. "É um medicamento que existe no mercado há muitos anos para outras indicações, como a cegueira do rio, que existe em África e está disponível como antiparasita em todos os mercados", revela Marco Gil, diretor comercial da empresa, em declarações à TSF.

"Temos conhecimento que a ivermectina foi estudada para outros vírus, em que resultados ou testes in vitro terão sugerido que tem alguma atividade antiviral como HIV, Dengue e outros vírus", acrescenta.

Marco Gil explica que esta ivermectina "é uma molécula muito antiga" datada da década de 1980, acrescentando que é um fármaco "com o perfil de segurança perfeitamente conhecido".

O responsável defende, tal como os investigadores, que o próximo passo são estudos complementares para que o fármaco seja usado com segurança no tratamento de doentes infetados pelo novo coronavírus. O objetivo é "definir a qual é a dosagem terapeuticamente necessária eficaz no combate à Covid-19."

Caso a eficácia da ivermectina seja confirmada nos testes futuros, Marco Gil diz que a Hovione "está disponível para aumentar a produção do medicamento" em larga escala.

Os investigadores da Universidade Monash, localizada em Melbourne, estão disponíveis para aprofundar o estudo dos efeitos da ivermectina no combate à pandemia, mas deixam um alerta. "É urgente o financiamento."

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