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Artigo de Imprensa / 09 Jun 2018

Hovione investe €5 milhões no talento

Expresso, 9 Junho 2018

A farmacêutica criou um programa para formar os analistas químicos que não consegue contratar.

A indústria farmacêutica vive o seu momento mais dinâmico desde o pico da crise em matéria de contratações, apesar das restrições que se mantêm na aprovação de inovação. Mas o recrutamento no sector tem várias velocidades. E se nas áreas de acesso ao mercado encontrar profissionais não é um problema — retê-los, sim! —, nos departamentos de Investigação & Desenvolvimento (I&D) o cenário é outro. Depois uma longa batalha para conseguir recrutar no mercado nacional analistas químicos em número suficiente e com a formação técnica e a experiência necessárias à função, a farmacêutica Hovione decidiu formá-los. No ano passado criou o Programa 9ºW, em parceria com um consórcio de instituições de ensino liderado pelo Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), e investirá nos próximos dois anos €5 milhões para formar todos os analistas químicos de que necessita.

É difícil encontrar nas farmacêuticas com atividade em Portugal quem admita dificuldades de contratação. Contactadas pelo Expresso, Bayer, Novartis, Roche, Pfizer e Sanofi recusam problemas em atrair talento, embora algumas reconheçam que retê-lo já é um desafio. Mas Pedro Borges Caroço, diretor executivo da unidade de negócio de Saúde e Ciências da Vida da consultora de recrutamento Michael Page, diz que há dificuldades, não atingem é todas as empresas na mesma medida.

A maior parte das farmacêuticas não possuem centros de I&D nem unidades de produção em Portugal. E é exatamente nesta área que residem os maiores problemas de contratação no sector, segundo o especialista. “Nas áreas de acesso ao mercado, de contacto da farmacêutica com os clientes, as dificuldades decorrem da elevada dinâmica da procura e da cada vez maior especialização dos perfis procurados”, explica (ver caixa). Ou seja, não há propriamente falta de profissionais qualificados, há é uma elevada taxa de rotação entre as empresas que coloca desafios no campo da retenção de talento. Já na I&D, há muitas vezes escassez de talento no mercado nacional. Empresas com centros de investigação e unidades de produção em Portugal têm de formar os seus próprios profissionais ou contratar fora. Pedro Borges Caroço dá o exemplo da Hovione e da Bial. O problema não é a falta de competências técnicas. É a dificuldade de encontrar perfis disponíveis que combinem a técnica com a experiência necessária à função.

CONTRATAÇÕES DIFÍCEIS
Foi este desafio que obrigou a Hovione a criar o Programa 9ºW e a financiar a construção no ISEL do PharmaLab, um laboratório de química analítica que permite formar os analistas químicos de que a empresa necessita. “Nos últimos anos percebemos que recrutar perfis nesta área é mais difícil do que noutras, e esta é uma área vital”, explica Sónia Amaral, responsável pela implementação do programa na Hovione.

“Os analistas são profissionais com o 12º ano de escolaridade e formação em técnicas laboratoriais de química analítica que são responsáveis pela execução de trabalhos práticos em ambiente de desenvolvimento e controle de qualidade”, explica, reforçando que o seu papel em laboratório é vital. Na primeira edição, o 9ºW formou 12 analistas químicos. Estão previstas mais seis edições até 2020. O curso dura um semestre e cada formando recebe uma bolsa de €1000, atribuída pela empresa. “O objetivo é que estes integrem a empresa numa lógica de continuidade e crescimento na carreira de analista químico”, que tem, garante, elevada empregabilidade.

A estratégia da Hovione de chamar a si a qualificação dos profissionais que lhe faltam é comum à Bial. José Carlos Ferreira, diretor do departamento de Recursos Humanos da empresa, confirma a necessidade da Bial em recrutar quadros altamente qualificados e especializados em áreas como a investigação química, farmacológica, clínica e farmacêutica e reconhece dificuldade em encontrá-los. “A oferta de investigadores nestas áreas em Portugal ainda é reduzida”, reconhece, acrescentando que “não há muitas empresas a fazer investigação farmacêutica inovadora em Portugal, e, nesse caso, é mais difícil atrair candidatos”. A empresa tem conseguido, mas nem sempre em Portugal.


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