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Artigo de Imprensa / Jun 29, 2020

Carta aberta aos líderes do nosso país

Expresso Online, 29 de junho, 2020

A pandemia vai durar mais um ano ou dois. Vamos sair dela terrivelmente empobrecidos e com muita dívida - todos: as famílias, as empresas e o Estado. Quantas mais mortes e quanta dor económica vai provocar depende apenas de nós, portugueses – os líderes deste país.

Nas últimas duas semanas de março andámos às voltas sem saber como reagir. Em abril e maio tivemos uma segunda fase da pandemia, foi quando a gestão da crise mostrou a fibra do líder. Alguns souberam atuar de forma decisiva, deram direção, criaram confiança, animaram as suas pessoas e definiram metas. Outros, não.

Os exemplos mais públicos são os de Trump, Bolsonaro, Johnson, Xi e Merkel. Os três primeiros erraram sucessivamente. Angela Merkel conduziu o seu país de forma exemplar. O Presidente Xi, depois de algum atraso, soube atacar o problema de forma inovadora e decisiva. Contrariamente aos três primeiros, Angela Merkel, doutorada em Física, e o Presidente Xi, engenheiro químico, têm a manifesta vantagem da preparação técnica e científica adequada para lidar com uma pandemia.

Não é possível vencer o vírus sem uma abordagem científica do desafio. Não é possível reduzir as mortes e minimizar a dor económica apenas com iniciativas políticas top-down, ainda que estas sejam críticas. Este é um teatro de operações desconhecido. Há que ser decisivo perante a incerteza; depois da decisão tomada é preciso concretizar de imediato e, finalmente, há que saber navegar à vista com base numa análise científica dos dados que existam ou trabalhar para obter os que ainda não são conhecidos. Se na sua equipa não tem um empreendedor, um executivo e um investigador, faça substituições.

Nos primeiros dois meses, Portugal foi admirado por todo o mundo pela forma como geriu a pandemia. Rui Rio deve ser o líder da oposição mais conhecido na Europa. A sua frase “o PSD é colaboração“ passou muitas vezes nas televisões espanholas e italianas como uma lição que todos deviam aprender. Mas mais importante foi o desempenho dos portugueses. Foram os pais que por medo e prudência não deixaram as crianças ir à escola. Ou seja, o nosso confinamento começou por iniciativa popular e não por imposição legal.

Mas Portugal está agora na lista negra. Não estamos no grupo dos “estão a vencer”, nem dos que “estão quase lá”, estamos no grupo dos “precisam de entrar em ação" (1).

É difícil, mas urgente, tomar decisões. Nesta pandemia sempre que um líder tomar decisões com base em dados estará sempre a tomá-las 14 dias demasiado tarde. Quem quiser tomar decisões acertadas e atempadas tem de conhecer o vírus e modelar o futuro com os dados que tem do passado recente.

O norte do país sofreu mais no início e, por isso, ganhou maior respeito ao vírus. Até final de maio tínhamos 20.504 casos positivos no Norte e 11.142 na zona da Grande Lisboa (2). Neste mês de junh0 (3), até dia 26 o aumento de casos positivos no Norte foi de 993 e 7.219 na Grande Lisboa. A zona de Lisboa está numa situação perigosíssima. Não podemos baixar a guarda.

Acresce que esta pandemia veio para ficar: vamos ter de viver com este pesadelo pelo menos durante um, talvez dois anos. E porquê? Vão ser aprovadas várias vacinas e até mais cedo que esperávamos. No entanto: i) não há dados que levem a crer que qualquer uma delas gere imunidade por mais de três meses, ii) a vacinação exige duas ampolas por pessoa e o total da capacidade de formulação estéril de ampolas de vacina no planeta é de cerca de cinco mil milhões de ampolas por ano e iii) sendo escassa quem é que será vacinado primeiro? Os mais velhos? Os mais vulneráveis? Não: o governo dos EUA já contratou com a Moderna e a University of Oxford/Astra Zeneca a compra de vacina para os seus cidadãos. Este último consórcio obteve do governo inglês financiamento e, em troca, garantiu vacinação dos cidadãos britânicos. Este mês, o governo alemão pagou 300 milhões de euros por 23 por cento da Curevac, empresa de Berlim, que está a desenvolver vacinas para o Covid-19.

Os tratamentos - dexametasona e remdesivir - são apropriados para pacientes em fase avançada da doença, pelo que de pouco servem para evitar a hospitalização.

Só vejo duas possíveis boas surpresas. O vírus poder sofrer mutações e tornar-se menos infecioso. Sabemos que ele vive e multiplica-se nos pulmões e é aí que o antiviral deve atuar. Felizmente, estão em desenvolvimento vários antivirais administrados por inalação.

Em todas as pandemias da História o vírus saiu sempre vencedor. Se quisermos que o desfecho desta vez seja outro só há um caminho alternativo: o conhecimento. Nunca a comunidade científica trabalhou tão bem, tão depressa e de forma tão colaborativa – mas é preciso também ensinar o resto da população a não ter medo do vírus aprendendo como se consegue viver com ele.

Se as pessoas permanecerem na ignorância vão ter medo e não vão saber como defender-se. Se soubermos semear conhecimento e nutrir a confiança, então tudo se resolve: o nosso instinto de sobrevivência trata do resto. Isto aplica-se, sobretudo, aos jovens. Foi com esse objetivo que os estagiários da Hovione lançaram um concurso nacional dirigido aos alunos do ensino secundário que visa premiar os vídeos que melhor ensinem a viver com o vírus (www.abcovid.pt). O objetivo é preparar os jovens para a rentrée, em setembro, dotando-os do necessário conhecimento sobre o vírus. Precisamos de mais iniciativas educativas.

Há decisões imperativas que têm de ser tomadas ao nível do país.

Não podemos ter líderes a pregarem uma coisa e a fazerem o contrário. Os líderes devem inspirar e têm de animar quem os segue; isso apenas é possível com integridade, transparência e dando o exemplo.

Os líderes não podem ser ambíguos, têm de esclarecer as pessoas. A DGS definiu regras; elas são para cumprir. Não podemos ter conversas mansas. Para nos proteger do vírus, o único nível de tolerância aceitável relativamente a qualquer incumprimento das regras é zero.

Portugal continua a receber aviões de todos os lados. Precisamos de ter controlos efetivos nas fonteiras. Há semanas que a Áustria obriga 100% dos passageiros a pagarem 160 euros para fazer o teste PCR no aeroporto ou a autoisolarem-se durante 14 dias. Portugal tem também de ser um país seguro para os turistas.

Portugal é dos países que mais testes faz. Esses dados têm de ser disponibilizados à comunidade científica. Testar permite identificar infetados e, assim, rastrear todos os seus contactos e suster o contágio. Quantas pessoas estão adstritas ao contact tracing? Sabe-se se este esforço está a ser eficaz? A velocidade de atuação - desde o sintoma, passando pelo teste, a obtenção do resultado, o contact tracing, até ao isolamento dos contactos -, tem de ser fulgurante, medido em horas, nunca dias, se não de nada vale. Era bom que a DGS divulgasse estes dados, a transparência gera confiança.

Para quando a adoção por Portugal da app da Apple-Google como já fizeram a Alemanha e a Itália? Esta app regista momentos de possível infeção e permite automatizar a notificação de contact tracing. A Comissão de Proteção de Dados tem de ser mais outro Rui Rio a colaborar e a contribuir para a proteção da nossa saúde.

A covid-19 é uma doença que mata e que amplia as injustiças sociais. Os empregos que pagam o salário mínimo – por exemplo: construção, limpeza e afins – levam, por vezes, as pessoas a trabalhar para mais do que um empregador para poderem sobreviver. Estas populações, sobretudo na zona de Lisboa, moram em bairros com maior densidade populacional, exatamente o oposto do distanciamento social que se pretende. Daí assistirmos a uma concentração maior de surtos nos bairros sociais. Uma conta rápida e imprecisa diz-nos que o risco de infeção é cerca de dez vez maior para estes habitantes.

É nesta fase que cada líder vai definir onde coloca a fasquia: o Governo, o empresário, o diretor da escola, o barman, o reitor, o padre, o chefe do supermercado, mães e pais de família…

Não espere que lhe digam - não lhe vão dizer -, pense e faça! Temos de avançar com cautela e sabedoria. Ainda nem estamos a meio caminho.

As decisões que vão determinar quantas mais mortes, quanto desemprego e quanto empobrecimento teremos são as que tomarmos nas próximas semanas. Onde colocamos a fasquia vai resultar em disciplina ou falta dela, em confiança ou medo, em conhecimento ou ignorância. Qualquer atitude que mostre complacência, ligeireza ou ambiguidade é a receita certa para o desastre. Ou acertamos onde pomos a fasquia ou mais tarde será muitíssimo mais penoso elevá-la.

Temos de inverter os números de Lisboa, é uma responsabilidade que cabe a todos. Peço-vos que respeitem o vírus: ele mata, aprendam a conhecê-lo, assim poderão vencê-lo. Finalmente, tenham a coragem de ser decisivos e exigentes na gestão do distanciamento social.

Temos de nos unir em torno deste objetivo comum: salvar vidas ao mesmo tempo que salvamos empregos.

 

(1) www.encoronavirus.org/countries
(2) httpss://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/05/90_DGS_boletim_20200531.pdf visitado a 22 de Junho de 2020: Norte: 16.760+3.744= 20.504; Grande Lisboa 11,142
(3) httpss://covid19.min-saude.pt/wp-content/uploads/2020/06/116_DGS_boletim_20200626-1.pdf visitado a 27 de Junho de 2020: Norte: 17.441+4.056 = 21.497; Grande Lisboa 18.361

 

Leio o artigo em Expresso Online

 

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Numa época em que as mulheres não trabalhavam, aos 19 anos Diane Villax era ”correspondente em línguas estrangeiras” numa empresa de representações. Aí aprendeu as bases para ajudar a desenvolver a Hovione, que criou com o marido há 66 anos. Hoje a empresa emprega mais de 2500 colaboradores e é fornecedor de preferência de algumas das maiores farmacêuticas do mundo. Quando entramos na sala da unidade fabril da Hovione em Sete Casas, Loures, Diane Villax espera-nos sentada, tranquila, pronta para quase uma hora de conversa e fotografias. Afável e bem-disposta, e com um rigor que se nota nas respostas, revela um enorme orgulho pela empresa que criou, em 1959  com o marido e dois compatriotas  húngaros. Ivan Villax era engenheiro químico com várias patentes de processo e a Hovione nasceu para fabricar antibióticos. Desde o primeiro dia os seus olhos estavam postos no mercado mundial  e foi a partir de casa, na Travessa do Ferreiro, que durante 10 anos produziu para o seu primeiro cliente importante, o mercado japonês, conhecido pelo elevado grau de exigência. Em 1969 foi construída a primeira fábrica em Loures, e, em 1986, iniciada a produção na segunda unidade fabril em Macau. A estas juntaram-se, já nos anos 2000, New Jersey, nos Estados Unidos e Cork, na Irlanda. Hoje, a Hovione emprega mais de 2500 colaboradores, dos quais mais de 300 são cientistas — é a empresa privada que mais doutorados emprega em Portugal – e orgulha-se de ser fornecedor de preferência de várias das maiores farmacêuticas do mundo. O casal Villax tinha tarefas distintas na empresa. Ivan era o inventor e Diane tratava da parte administrativa, a partir de casa. Não teve formação para empresária, apenas um curso de estenografia e datilografia e, antes de casar, um emprego numa empresa de importação, que em três anos lhe deu as bases necessárias para ajudar a desenvolver a Hovione. O seu método e rigor ajudaram-na a lidar com os bancos no início da empresa, porque os seus conhecimentos sobre negócios eram escassos. Ivan Villax faleceu em 2003, deixando uma descendência de quatro filhos e 16 netos, que têm a missão de continuar a desenvolver a empresa. Aos 91 anos, Diane Villax já não está no dia-a-dia da Hovione, mas lê as inúmeras noticias que recebe diariamente sobre a evolução do setor farmacêutico,  bem como toda a informação sobre a empresa. Gosta de estar atualizada para acrescentar valor às reuniões do Conselho de Administração. “Se eu não estou a par, os meus filhos reformam-me”, ironiza. Depois de conhecer Diane Villax na sua primeira unidade fabril, a 14 de janeiro, não estranhamos quando nos despedimos e a vemos com as chaves do seu carro na mão, pronta para conduzir para as Amoreiras para assistir a La Traviata. “Gosto muito de La Traviata!”, diz com o mesmo sorriso afável com que nos recebeu uma hora antes. Quais foram os marcos principais desta história que já conta 66 anos? O primeiro marco foi o que nos lançou e o que nos permitiu desenvolvermo-nos. No fim dos anos 1960 e durante todos os anos 1970, o Japão foi o nosso mercado principal. Durante 10 anos fornecemos a indústria japonesa a partir de nossa casa, numa cave da Travessa do Ferreiro. O meu marido era muito inovador. Tinha patentes de processo e em todo o mundo não anglo-saxónico não havia patentes de produtos farmacêuticos. Quando casámos já ele tinha patentes de invenção sobre toda a gama dos corticosteroides. No Japão, naquela altura, não fabricavam a matéria-prima, só formulavam o produto final, necessitando, portanto, de comprar o ingrediente ativo. Os eventuais clientes descobriram que em Portugal um certo Ivan Villax tinha patentes sobre essa gama de produtos na qual eles tinham interesse e vieram bater à nossa porta. Acharam que o nosso IP era robusto, a tecnologia era ótima e a qualidade do produto era excelente. A qualidade para o Japão é um “sine qua non”. Iniciámos uma colaboração que durou mais de 10 anos e nos permitiu construir a nossa primeira fábrica, em Sete Casas (Loures), que iniciou a produção em 1971. O segundo momento importante foi o lançamento no mercado dos Estados Unidos, em 1982. É um mercado gigantesco, competitivo, exigente, mas que reconhece serviço e qualidade. O meu marido tinha a patente de processo para o fabrico de um antibiótico de largo espetro, a doxiciclina, cuja patente do inovador caducou precisamente no verão de 1982. Tinha-se feito algum estudo de mercado certamente, mas não pensávamos que a procura seria tão grande. Até hoje já fornecemos centenas de toneladas de doxiciclina ao mercado norte-americano a partir da nossa fábrica de Macau. “Desde o primeiro dia, o mundo é o nosso mercado. E sempre quisemos ser uma boutique, criar um nicho no mercado. Somos mestres no que oferecemos.”     Leia o artigo completo em Executiva.pt  

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