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Article / Jul 09, 2026

Podcast “A Próxima Descoberta” (EP4) - Comprimidos em contínuo, vidas em movimento

Observador Lab, 7 julho 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione.

Da fábrica à farmácia em muito menos tempo: como a produção contínua de comprimidos está a tornar os tratamentos mais rápidos, robustos e acessíveis para quem mais precisa.

Ouça aqui o quarto episódio do podcast, com João Ventura, diretor sénior da área de produto farmacêutico na Hovione.

[Transcrição]

E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta".

Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo a "A próxima descoberta". É uma parceria entre a Rádio Observador e a Hovione, uma série de seis episódios onde abrimos as portas do desenvolvimento farmacêutico global feito a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vamos conhecer esta tecnologia que está a transformar a forma como os medicamentos são produzidos e a acelerar o acesso dos pacientes a novos tratamentos. Para nos guiar nesta viagem, recebemos hoje João Ventura, diretor sénior da área de produto farmacêutico na Hovione. 

NF: Olá, João, muito bem-vindo. Durante décadas, a indústria funcionou através da chamada produção em lote. Como é que funcionava este método tradicional e por que a produção contínua representa, de facto, uma mudança tão significativa para a indústria farmacêutica?

João Ventura (JV): Obrigado, Nelson, pelo convite e também por esta pergunta, para começarmos a falar desta inovação. Com efeito, como o Nelson referiu, durante muitas décadas, a indústria realizou a produção de medicamentos em forma de comprimidos através do método tradicional, que é a produção em lote. Este método consiste na produção de uma quantidade muito bem definida, o lote de produto de cada vez, e a execução de cada passo unitário do processo produtivo de forma discreta. Isto quer dizer que cada passo unitário seguinte só começa tipicamente quando todo o lote material do passo anterior já terminou de ser fabricado, processado, recolhido e amostrado para verificação de qualidade. No caso da produção de comprimidos, o processo produtivo inclui passos de pesagem, de mistura, granulação, compressão do próprio comprimido e, finalmente, de revestimento do exterior do comprimido. Embora esteja bem compreendido, amadurecido e implementado do ponto de vista industrial e regulatório, este método, na verdade, Nelson, pode tornar-se ineficiente, uma vez que o material pode passar uma grande quantidade de tempo entre cada passo unitário do processo, simplesmente à espera. À espera da verificação de qualidade ou simplesmente à espera de disponibilidade do equipamento do passo seguinte. Ao contrário, a produção em contínuo de comprimidos permite mover todo o material de forma contínua, automatizada, entre cada passo unitário deste processo, assim como averiguar a qualidade de cada comprimido produzido. Isto permite à produção em contínuo alcançar benefícios inalcançáveis pelos métodos tradicionais da produção em lote.

NF: Mas, João, esta ideia de produzir de forma contínua parece, de facto, mais lógica, mas na indústria farmacêutica, pelo que percebi, é uma tecnologia recente. Quando é que o mercado começou a aceitar esta mudança?

JV: Com efeito, Nelson, como sabe, a indústria farmacêutica, por boas razões, tem que ser uma indústria conservadora, que dá passos de inovação com muitos cuidados. Com efeito, foi apenas a partir do início dos anos 2000, que a própria FDA, a Agência Regulatória dos Estados Unidos da América, iniciou a promoção junto da indústria do desenvolvimento destas tecnologias alternativas, mais ágeis e simultaneamente mais robustas do ponto de vista da qualidade, baseadas, como eu referi, nesta integração e automatização de todo o processo em contínuo dos passos unitários utilizados na produção dos comprimidos. Isto necessitou, de facto, do desenvolvimento de um novo tipo de equipamento produtivo, de nova maquinaria, que realizasse todo o processo mecânico em contínuo, de forma automática, assim como o desenvolvimento dos componentes de eletrônica e do software, que fizesse o controle e inspeção da qualidade do produto, tanto nos passos intermédios como no próprio comprimido final. Depois deste desenvolvimento tecnológico inicial, foi apenas depois, durante a década de 2010, que a FDA aprovou os primeiros produtos desenvolvidos em contínuo por grandes farmacêuticas, como a Vertex ou a Janssen. E isto marcou um ponto decisivo de inflexão na aceleração da curva de adoção desta tecnologia de produção em contínuo de comprimidos.

NF: E que problemas práticos é que este novo sistema vem resolver no dia a dia desta indústria? Imagino que há também aqui ganhos em termos de controle de qualidade. Ainda agora falava que este processo permite essa avaliação da qualidade no meio e no final do comprimido final, neste caso.

JV: Sim, é verdade. A comercialização desta primeira onda de medicamentos produzidos em contínuo por estas empresas que eu referi, a Vertex e a Janssen, de facto, foi muito importante, pois mostrou à indústria como um todo que esta nova tecnologia de produção em contínuo era capaz de criar grandes benefícios, tanto para os pacientes como para a indústria em geral. Em primeiro lugar, por conseguir encurtar os tempos de desenvolvimento e de produção dos novos medicamentos, o que permite avançar as inovações terapêuticas, os novos fármacos em si, que são importantes para melhorar a saúde dos pacientes muito mais rápido do que antes.

NF: Chegam mais rápido ao mercado, se calhar, também.

JV: Exatamente. E adicionalmente, como o Nelson referiu, esta tecnologia permite, de facto, verificar a qualidade de cada comprimido produzido, e não apenas uma pequena amostra, como na tecnologia em lote, o que garante por si só maior robustez em termos de controle de qualidade do produto final, o que é benéfico para a sociedade como um todo.

NF: Claro. E essa vantagem da velocidade, digamos, é verdade que em casos de emergência médica ou de saúde pública, este sistema também é mais favorável porque responde mais rapidamente ao mercado. Isto já aconteceu?

JV: Sim, essa é uma das grandes vantagens potenciais desta tecnologia. O facto de conseguirmos produzir em apenas minutos em processo contínuo, o que tradicionalmente na produção em lote levaria várias semanas, pelo facto de existirem estes tempos de paragem no processo tradicional, para além do benefício econômico, tem essa vantagem adicional de que, em caso de emergências médicas ou de saúde pública, em que é preciso Escalar a produção de novos medicamentos para responder a situações de emergência. Isto permite fazê-lo muito mais rápido do que anteriormente.

NF: A Covid-19 é um exemplo disso?

JV: É um exemplo perfeito.

NF: Beneficiou já desta rapidez?

JV: Ainda não, mas antecipamos que, no futuro, em próximas situações de emergências pandêmicas, esta tecnologia desempenhará um papel fundamental nesse processo de, tal como vimos no caso das vacinas, ter que escalar a produção industrial muito mais rapidamente.

NF: João, a Hovione posicionou-se como pioneira global nesta tecnologia, muito através de uma parceria estratégica com a Vertex, de que já falou aqui, isto aconteceu em 2016. Como é que uma empresa portuguesa se tornou a primeira do seu género a adotar um avanço tão importante à escala industrial e nos Estados Unidos?

JV: Desde a sua fundação, Nelson, a história da Hovione tem estado muito ligada à adoção e à utilização de novas tecnologias de produção de produtos farmacêuticos, com o potencial de fornecerem grandes vantagens de desempenho econômicas à escala industrial. Este tem sido um dos segredos de sucesso da Hovione. E de fato, durante a década dos anos 2010, como falamos há pouco, a Hovione reconheceu cedo o potencial e as vantagens da tecnologia de produção de comprimidos em contínuo. E como o Nelson referiu, em 2016, a Hovione avançou para fechar esta parceria estratégica com a empresa Vertex, para estabelecer capacidade de produção de comprimidos em contínuo à escala industrial nos Estados Unidos. A Hovione foi provavelmente a primeira empresa da sua tipologia a adotar esta nova tecnologia. Este avanço foi importante não só para suportar a adoção da tecnologia na indústria, mas em particular, neste caso, na parceria com a Vertex, contribuiu também de uma forma fundamental para o desenvolvimento de um novo fármaco, como se adapta a Vertex, mais eficaz para o tratamento da fibrose quística, que é uma doença absolutamente terrível e afeta principalmente as crianças e é ainda incurável.

NF: Sem dúvida. Há pouco o João falava que do ponto de vista industrial, isto criou desafios. Foi preciso, imagino, desenhar, instalar máquinas mais complexas para que tudo isto funcione?

JV: Sim, é verdade, Nelson. Os desafios foram enormes nessa primeira instalação à escala industrial desta tecnologia de produção em contínuo de comprimidos. A equipe da Ovione levou o projeto desde a fase de conceção e desenho da instalação e do novo equipamento, como o Nelson referiu, até à própria construção do edifício, a instalação desse novo equipamento e depois a execução operacional de toda a produção desse novo medicamento para a Vertex, que teve essa grande importância também para o tratamento de uma doença incurável, muito complicada para os pacientes que infelizmente dela sofrem.

NF: Creio que depois dessa primeira unidade nos Estados Unidos, esta é uma tecnologia que já trouxeram para Portugal, para Loures, onde tem uma segunda linha já há alguns anos. Isto de alguma forma fecha o ciclo para a Hovione, já conseguem trabalhar da molécula ao comprimido final.

JV: Sim, é isso mesmo. Após essa primeira instalação industrial e a experiência adquirida, em virtude também da observação de uma maior procura e interesse do mercado por esta tecnologia, a Hovione expandiu e investiu no início dos anos 2020 a sua capacidade de produção através da construção e instalação de uma segunda unidade de produção de comprimidos em contínuo na fábrica de Loures, aqui em Portugal. Como referiu, a fábrica da Hovione de Loures é de fato capaz de realizar o ciclo completo de desenvolvimento, desde a produção química da nova molécula, a entidade inovadora, até depois à sua formulação e ao fabrico do comprimido final.

NF: João, nós estamos aqui em alturas de mundial de futebol, em que se apela muito também ao orgulho nacional. Imagino que quando um doente toma um comprimido inovador, e pode estar a fazê-lo em qualquer parte do mundo, há um orgulho nacional também em saber que a engenharia e a tecnologia que o tornaram possível passaram por equipes portuguesas.

JV: Sem dúvida, Nelson. É através desta combinação da nossa capacidade aqui em Portugal de estar atentos à adoção de novas tecnologias inovadoras, investir na capacidade de produção baseada nestas tecnologias de vanguarda, que conseguimos afirmar nos nossos respectivos setores, nas nossas indústrias, como parceiros de confiança dos nossos clientes. Tem sido esse o caso da Hovione e de fato temos conseguido contribuir para, como o Nelson referiu, produzir medicamentos inovadores que tratam e melhoram a qualidade de vida de milhões de pessoas pelo mundo fora. Isto deve ser motivo de orgulho para todos nós aqui em Portugal, à semelhança da nossa grande seleção.

NF: João, muito obrigado por nos explicar como é que esta tecnologia está de fato a desafiar a tradição, a acelerar também a produção de medicamentos que salvam vidas. João Ventura é diretor sénior da área de produto farmacêutico na Hovione. Fica por aqui o quarto episódio da próxima descoberta. Nas próximas semanas, vamos mudar de rotas. Vamos perceber, por exemplo, como é que o nosso sistema respiratório e nasal podem também ser utilizados para levar medicamentos de forma mais eficaz, quer aos pulmões e em alguns casos funcionar também como uma autêntica autoestrada para o cérebro. 

Não perca os próximos episódios em Observador.pt e também nas habituais plataformas de podcast. Até à próxima descoberta.

 

 

 

 

 

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ZUG, SUÍÇA, 8 de setembro de 2026 — A Hovione Holding AG anunciou hoje a nomeação de Stefan Doboczky como Chief Executive Officer (CEO), com efeitos a partir de 1 de abril de 2027. Stefan Doboczky é Presidente do Conselho de Administração da Hovione Holding AG desde 2024, tendo desempenhado um papel fundamental na definição da estratégia e da visão da empresa. Deixará a presidência do Conselho de Administração quando assumir as funções de CEO. Fundada em 1959, a Hovione é um grupo familiar de tecnologia e serviços farmacêuticos que serve a indústria à escala global, com mais de 2.600 colaboradores, quatro unidades de produção e I&D inspecionadas pela FDA-Food and Drug Administration na Europa, nos Estados Unidos e na China, e é reconhecida internacionalmente pela sua liderança tecnológica nas áreas de secagem por atomização (spray drying) e produção contínua de comprimidos (continuous tableting). Esta nomeação marca o regresso de Stefan Doboczky à indústria farmacêutica, após mais de 17 anos na Royal DSM, onde chegou a membro da Comissão Executiva, com responsabilidade pelo portefólio farmacêutico global do grupo e pelo seu crescimento na Ásia. Posteriormente, exerceu durante 11 anos funções de CEO em empresas industriais cotadas, detidas por fundos de capital privado e integradas em grupos empresariais, incluindo a Lenzing AG, a Heubach GmbH e a Borealis AG. Após a integração da Borealis, da Borouge e da NOVA Chemicals na Borouge International, assumiu as funções de Chief Commercial Officer e Vice-Presidente da Comissão Executiva do grupo resultante da fusão. Passará estas responsabilidades ao seu sucessor a 1 de outubro de 2026 e permanecerá disponível durante seis meses para apoiar a transição. Stefan Doboczky possui um mestrado em Química Técnica e um doutoramento em Ciências Naturais, ambos pela Universidade Tecnológica de Viena (TU Wien), na Áustria, e também um MBA pelo IMD, em Lausanne, na Suíça. Esta nomeação resulta de um processo de sucessão abrangente conduzido pelo Conselho de Administração e representa um passo importante na evolução da Hovione. Reflete a ambição da empresa de continuar a reforçar a sua posição internacional como fornecedor de referência de tecnologia e serviços para empresas farmacêuticas em todo o mundo. Guy Villax, Administrador Não Executivo e Presidente do Conselho de Família, em representação do principal acionista da empresa, afirmou: “Estamos muito satisfeitos por o Stefan assumir a liderança executiva da Hovione. Enquanto Presidente do Conselho de Administração, adquiriu um conhecimento profundo da empresa, da sua cultura e das suas pessoas, e contribuiu para definir a nossa orientação estratégica e as nossas prioridades. A sua experiência internacional, as suas competências comerciais e a sua comprovada capacidade para transformar empresas de forma sustentável colocam-no numa posição privilegiada para liderar a Hovione na sua próxima fase de crescimento. A sua disponibilidade para passar do Conselho de Administração para a liderança executiva é um forte sinal da sua confiança nesta empresa e nas oportunidades que tem pela frente. Stefan Doboczky, CEO designado da HOVIONE, afirmou: “É uma honra assumir o cargo de CEO da Hovione e passar da presidência do Conselho de Administração para a liderança executiva da empresa. Ao longo destes dois anos como Presidente, pude conhecer o extraordinário potencial desta organização, assente numa base tecnológica muito sólida, em pessoas talentosas e num forte compromisso com os doentes. Regressar à indústria farmacêutica, onde desenvolvi uma parte fundamental da minha carreira, e fazê-lo como CEO de uma empresa familiar com uma visão de tão longo prazo é uma oportunidade única. Agradeço ao Conselho de Administração e aos acionistas a confiança depositada em mim. Estou entusiasmado com a perspetiva de trabalhar em estreita colaboração com a equipa de liderança global da Hovione e com o Conselho de Administração para reforçar a nossa presença internacional, impulsionar a inovação e criar valor sustentável para os nossos clientes, parceiros e acionistas.” O Conselho de Administração expressa também o seu reconhecimento a Marco Gil e António Almeida pela liderança que têm assegurado durante este período como co-CEOs interinos e por garantirem a continuidade da execução bem-sucedida da estratégia da empresa até Stefan assumir funções como CEO.      

Artigo de Imprensa

Hovione nomeia Stefan Doboczky como Chief Executive Officer

Set 08, 2026

O podcast "A Próxima Descoberta" é uma série de seis episódios numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione. Dos hospitais às casas dos doentes, conheça as soluções que permitem administrar biológicos de alta dosagem com mais conforto, menos dor e maior liberdade no tratamento. E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta". Ouça aqui o sexto e último episódio do podcast, com João Pires e Joana Cristovão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.   [Transcrição] Nelson Ferreira (NF): Seja bem-vindo ao sexto e último episódio de "A próxima descoberta", uma série de podcasts em que a Hovione abre as portas do seu mundo para partilhar conosco o impacto global da inovação desenvolvida a partir do nosso país. Eu sou o Nelson Ferreira e ao longo desta viagem falamos de processos químicos, de partículas ultrafinas e de linhas de produção revolucionárias. Hoje olhamos diretamente para o futuro da medicina. Depois de explorarmos o mundo das pequenas moléculas, entramos agora numa nova dimensão terapêutica, a dos medicamentos biológicos, baseados em moléculas maiores e mais complexas, que estão a abrir novas possibilidades de tratamento de várias doenças. E para nos explicar como esta área está a evoluir e como a ciência pode tornar estes tratamentos mais eficazes, estáveis e acessíveis para os doentes, recebo o João Pires e a Joana Cristóvão, do Centro de Investigação e Desenvolvimento da Hovione.  NF: Muito bem-vindos a ambos. João, começaria por si. Para quem nunca ouviu falar deste termo, o que são afinal os medicamentos biológicos e o que os distingue dos medicamentos de pequenas moléculas, que são mais associados à química tradicional? João Pires (JP): Sim. Se pensarmos um bocadinho naquilo que podemos encontrar hoje em dia nas farmácias, é de facto verdade que a maioria desses medicamentos são compostos por essas pequenas moléculas, estruturas mais simples, ainda que eficazes, mas que nós conseguimos desenhar e fabricar pela química chamada clássica e que desenvolveu esse conhecimento ao longo dos últimos 150 e 200 anos. Relativamente aos biológicos, são completamente diferentes. São organismos que não só pela sua complexidade, como muito maior dimensão e estrutura, são, principalmente na sua origem, bastante diferentes, porque são produzidos de organismos vivos, por exemplo, as células, que dadas certas condições ideais, podem funcionar como fábricas de biológicos e que nos permitem, tal e qual como no nosso corpo, extrair as substâncias desejadas, que podem ter uma influência terapêutica relevante para certas indicações. Beneficiam, por isso, de milhões de anos de evolução, que a química clássica não tem conseguido. NF: É a biologia que fez essa evolução. JP: É a biologia. Portanto, é a beleza também da- NF: A natureza que fez esse processo todo, esse processo por nós.  NF: Joana, por serem criados a partir de organismos vivos, podemos dizer que estes medicamentos são, entre aspas, mais inteligentes, que têm um potencial terapêutico maior? Joana Cristovão (JC): Podemos dizer que efetivamente, em alguns dos casos, têm um elevado potencial terapêutico. A vantagem destas moléculas é que são moléculas com uma capacidade de especificidade bastante elevada. Ou seja, podemos ver como se fosse uma chave para uma fechadura. Tem de ser a chave certa para a fechadura. Efetivamente, os biológicos, falando a mesma língua biológica dentro do nosso corpo, conseguem ter esta vantagem, estão a falar a mesma língua. Mas não significa que são melhores do que as pequenas moléculas. Significa que, efetivamente, sendo produzidas por micro-organismos vivos, são bastante complexas e seria muito difícil, e em alguns casos impossível, de serem produzidas pela clássica síntese química, mas têm aqui uma grande vantagem de serem bastante específicos. Exemplos de biológicos são proteínas que têm a função de comunicar dentro do nosso corpo, anticorpos monoclonais que têm a função de identificar um alvo específico e estas funções efetivamente são mais relevantes nos biológicos do que nas pequenas moléculas. NF: João, esta é uma área, pelo que percebo, um pouco emergente ainda em todo o mundo. Como é que a Hovione, sendo uma empresa historicamente ligada à síntese química e engenharia de partículas de pequenas moléculas, chegou até aqui e decidiu também abraçar este desafio dos biológicos? JP: Sinceramente, tem sido uma transição muito natural. Acho que primeiro porque ao longo dos anos a Hovione desenvolveu um conjunto de especialidade, conhecimento científico muito específico em áreas também elas muito específicas de química, engenharia de partícula e formulação. E quando olhamos para os biológicos, apesar da sua maior complexidade, o problema acaba por ser mais ou menos o mesmo. Continua a precisar de materiais, processos e controles que os permitam chegar de uma forma estável e robusta aos pacientes. NF: Mas há potencial? JP: Claro que sim. Não só há potencial como há desafios. E isso vem, se calhar, o segundo ponto, que é a curiosidade. Acho que desde a história da Hovione e desde o fundador, essa curiosidade e esse desejo de abraçar desafios cada vez mais complexos, é um pouco parte da gênese, principalmente no nosso centro de inovação e desenvolvimento, e por isso é também um fator muito aliciante para quem trabalha na Hovione, poder estar a par desta transição. NF: E não está assim tão longe da sua história também. JP: Não. NF: Por isso que explicava.  NF: Joana, em que áreas terapêuticas é que estes medicamentos biológicos já tiveram um impacto mais significativo? Há doenças que vieram mudar claramente a forma como os doentes são tratados? JC: Há áreas- NF: Isto já não é ficção científica, já existe na prática. JC: Exatamente. E já existe há muito tempo em algumas áreas. Por exemplo, na oncologia existem anticorpos que são utilizados também para matar as células cancerígenas. Com especificidade. Ou seja, em vez de matarmos as células de uma maneira geral, direcionamos esta morte ao mecanismo de ação da doença. NF: Reduz efeitos secundários, imagino. JC: E que também reduz efeitos secundários. E numa vertente também diferente, o cancro é uma doença bastante esperta e evolui muito rapidamente, porque se esconde das nossas defesas e do nosso sistema imunitário. Então também existem tratamentos baseados em biológicos, cujo objetivo também é ajudar as nossas defesas a fazerem o trabalho delas, a retirar este véu invisível que alguns tumores têm, que os faz progredir muito rapidamente e a ajudar as nossas defesas a atacar. Outro exemplo, e é um exemplo clássico que já foi resolvido há 40 anos, é o exemplo da diabetes. A insulina é o tratamento mais comum utilizado para a diabetes e aqui, antes da biotecnologia, a insulina era isolada de animais e consequentemente, a sua produção era bastante limitada. Com a possibilidade de utilizar a biotecnologia para produzir os biológicos, conseguimos produzir insulina humana, a chamada insulina recombinante, porque efetivamente utilizamos micro-organismos vivos para os produzir. E esta mudança fez com que este tratamento ficasse disponível para mais pessoas e que se salvassem milhares de vidas. NF: Dois exemplos claros onde estes biológicos já estão, entre aspas, a atacar. João, hoje já estão, de facto, no mercado, mas imagino que a transposição e estabilização em laboratório trazem grandes desafios técnicos. Que desafios é que foram estes no caso dos biológicos? JP: Sendo moléculas muito complexas e, como a Joana descreveu, até de alguma forma elegantes, são também igualmente sensíveis, quase como uma flor de estufa. E portanto, a evolução biológica, como falámos há pouco, tratou de as otimizar para sobreviverem e estarem em condições muito específicas, condições essas que muitas vezes não são as que nós temos nos nossos processos industriais, de transporte ou até da administração do fármaco. E portanto, estas moléculas são tipicamente muito sensíveis ao calor, ao ar, à pressão e até só o simples fato de elas estarem muito tempo juntas, acabam por começar a interagir entre si, perder a sua estrutura e também, infelizmente, o seu efeito terapêutico. E é um bocadinho aí que nós entramos, ou seja, os clientes tipicamente vêm ter connosco com algo com potencial terapêutico muito grande, mas apenas muitas vezes só uma prova de conceito. E nós pegamos, digamos assim, nesses primeiros testes laboratoriais experimentais para tentar criar aqui controles, processos, até formulação, que permita levar isto aos milhares, milhões de unidades, sempre com obviamente bastante cuidado para um controle de qualidade e estabilidade imaculados para os fármacos. NF: Joana, mas afinal, como é que são administrados estes medicamentos? São diferentes dos outros? Tradicionalmente, muitos exigem uma ida ao hospital para uma administração intravenosa mais demorada. É assim que funcionam com os biológicos? JC: Exatamente. Tradicionalmente, estes biológicos são administrados diretamente na veia por perfusão, muito semelhante quando nós levamos soro. Mas a indústria farmacêutica quer se focar também não unicamente em resolver os problemas e doenças, mas também tem um foco grande no doente. Esta administração envolve uma ida ao hospital, algum tempo para ser administrado e em doenças crônicas, isto repete-se ao longo da vida. E a ambição da indústria farmacêutica também é arranjar tratamentos alternativos que sejam mais confortáveis ao doente e que se crie mais autonomia para o doente. NF: Para que ele não precise, se calhar, de ir ao hospital? JC: Exatamente. O objetivo final seria então termos soluções mais injetáveis com uma ambição do próprio doente conseguir administrar sozinho. Para isso, então é preciso haver inovação na parte de tecnologia, de desenvolvimento de formulações e de dispositivos que permitam que o doente o consiga fazer. NF: João, é aqui que entra o vosso conceito de formulações de alta concentração. O que é isto na prática? E de facto, um dia já não precisaremos de um enfermeiro para uma injeção. Haverá um dispositivo para o fazermos nós próprios. JP: Sim, esperemos que sim. O conceito de formulações de alta concentração é relativamente simples. Significa colocar o máximo de medicamento no volume o mínimo possível, mínimo o suficiente que possa, por exemplo, caber num bolso, estilo um auto injetor, que hoje em dia creio que as pessoas- NF: Uma caneta. JP: Uma caneta. Creio que as pessoas, até pela nova geração de alguns medicamentos, especialmente para obesidade, etc, tornou-se relativamente popular e bastante mais familiar, apesar de ser utilizado em outras aplicações. Isto tecnicamente parece simples, colocar mais de uma coisa, menos de outra, mas obviamente, como sabemos, estas moléculas, e já falámos aqui, são bastante sensíveis e à medida que vão sendo mais concentradas, ou seja, estão mais apertadas entre si Problemas começam a surgir. Para além da estabilidade e como já falámos um bocadinho da sua alteração de estrutura, há essencialmente um problema de viscosidade. Eu acho que isto é fácil de visualizar, qualquer coisa mais concentrada tende a ser mais viscosa. NF: Mais difícil de injetar. JP: Mais difícil de injetar, o que leva à questão da dor e, portanto, mais viscosidade tipicamente leva a uma maior dor da administração. Isso viola diretamente o conceito de desenvolvermos formulações e medicamentos mais convenientes e mais user friendly. E é esse o problema que a indústria neste momento tem em mãos, arranjar soluções que consigam quebrar as barreiras da dose e baixar os volumes sem comprometer a eficácia terapêutica, mas também a conveniência e a aceitabilidade destas novas soluções de alta concentração. NF: Joana, só para terminarmos, o que sentem os cientistas quando olham para o futuro e veem também este trabalho diário da Hovione a aproximar a medicina de soluções que são cada vez mais personalizadas, mais convenientes, mais centradas na vida dos doentes, mais confortáveis para eles? Imagino que orgulhosos por esse desenvolvimento também. JC: Acho que é uma grande responsabilidade e acho que daí também vem uma grande motivação. A medicina está cada vez a tornar-se mais personalizada, mais focada nos mecanismos que levam à doença e não só focada no tratamento de sintomas, mas em ser mais dirigida àquilo que faz com que haja doença. E acho que é um grande orgulho estar em equipas que fazem parte desta jornada, que nos levam a um futuro melhor e focado no doente. NF: João, o futuro é biológico ou não só, mas também? JP: Não só, mas também. Mas claramente acho que os biológicos nos permitem novos sonhos, novas ambições, especialmente em melhores medicamentos, mais personalizados e mais eficazes e, portanto, abre todo um conjunto de possibilidades que até hoje se calhar não era possível de imaginar. NF: João Pires e Joana Cristóvão, muito obrigado por nos abrirem as portas do futuro da medicina. É com este olhar sobre o amanhã que termina a primeira temporada do podcast "A Próxima Descoberta". Ao longo destes seis episódios, viajamos desde uma cave em Lisboa em 1959, até à liderança tecnológica mundial, que todos os anos toca a vida a mais de 80 milhões de pessoas. Ficou provado que com curiosidade, rigor e talento, as próximas grandes descobertas da ciência mundial podem mesmo ter a assinatura do nosso país. Para ouvir todos os episódios desta série, pode fazê-lo em Observador.pt e nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, foi um gosto acompanhar-vos nesta viagem. Até à próxima descoberta.    

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Podcast “A Próxima Descoberta” (EP6) - Biológicos de alta dosagem: da ficção à realidade

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